O que funcionar

13 ago

Ontem eu assisti a um filme de 2009, que já não é novidade, mas que por um motivo ou por outro acabava sempre deixando para depois. A primeira vez que tentei assistir à comédia intelectual Tudo pode dar certo (Whatever Works), de Woody Allen, eu dormi. Intelectual porque não é muito do tipo “HAHAHA”, é mais do tipo “ha ha, entendi esse sarcasmo.” E aproveito essa observação para falar sobre minha teoria de que todo entretenimento tem que ter um bom timing.

Digo isso porque muitas vezes a interpretação e a importância que damos a determinada obra está diretamente relacionada ao momento em que vivemos. Em outras palavras, você não quer ouvir sobre decepções amorosas quando está na lua de mel. E é por isso que gosto de dar uma segunda chance aos livros, filmes e afins. Às vezes fico feliz por dar essa segunda chance e, às vezes, fico me torturando pelo tempo desperdiçado. Mas acho que vale arriscar.

Quanto a “Tudo pode dar certo”, foi a primeira opção. Ainda que seja mesmo um pouco monótono, o filme traz todo o otimismo que eu estava precisando. Aliás, o título em português traduz bem esse otimismo, mas o título original resume melhor a essência do filme.

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A história traz até nós um cara chamado Boris, imagino que vivendo os seus quase setenta anos. Ele é um gênio da física e, como toda mente brilhante, é muito problemático: fatalista, pessimista, hipocondríaco e sofre da síndrome do pânico. Boris tem uma teoria sobre a vida: ela não tem sentido algum. Estamos aqui de passagem e, o máximo que podemos fazer, é extrair alguns poucos de momentos de prazer quando possível.

Ele resume sua teoria na frase “whatever works, as long as it doesn’t hurt anybody”, o que significa “o que quer que funcione, desde que não machuque ninguém”. Se o filme parasse por aí eu já gostaria, porque ele consegue representar com perfeição uma angústia que toma conta de mim e, creio eu, de muitos Geração Y: a responsabilidade de não apenas viver, mas viver muito, viver bem e ainda fazer o bem.  Boris fala como é pesado conviver com todas as manchetes que nos dizem o que comer, que exames fazer, como se exercitar, qual o tipo de relacionamento ideal, qual a profissão do momento e, ainda por cima, como conviver com a impotência perante fatos trágicos que ocorrem diariamente. Quando ele fala isso e ainda completa com “não há o que fazer” eu tenho vontade de abraçar ele e agradecer, dizendo que é exatamente como me sinto em alguns dias. Será que não dá para só viver de vez em quando?

Mas aí o próprio Boris acaba mudando de ideia com a chegada de novos personagens em sua vida, em especial Melody, uma garota MUITO mais nova e MUITO menos brilhante que ele. Não quero entregar os desfechos do filme, mas é interessante perceber como o próprio personagem principal, que tanto queria o isolamento e a indiferença, acaba afetando a vida de diversas pessoas. E acredito que foi isso o que mais me encantou no filme: a capacidade que nós temos de criar e manter vínculos e, por meio deles, fazer a vida ter algum sentido.

Isso eu preciso entregar. Lá no finalzinho, quando Boris parece regenerado do seu pessimismo crônico, ele fala para os espectadores que só ele vê (aliás, amei esse formato) a coisa mais otimista que eu poderia ouvir num domingo à noite: “[…] whatever love you can get and give, whatever happiness you can filch or provide, every temporary measure of grace, whatever works […] Don’t kid yourself. The biggest part of your existence is made of luck”. Traduzindo: “[…] todo o amor que você puder dar ou receber, toda felicidade que puder usufruir ou prover, qualquer forma temporária de graça, o que quer que funcione […] Não se engane. A maior parte da sua existência é feita de sorte”.

Vai lá, assiste. Tudo pode dar certo.

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Título: Tudo pode dar certo (Whatever Works)

Autor e diretor: Woody Allen

Ano: 2009

 

P.S.: quase me esqueci! Dêem uma olhada no personagem Randy Lee James. Uma visão MUITO otimista!

(Post por Jeana Mattei)

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2 Respostas to “O que funcionar”

  1. Raíssa 13 de agosto de 2012 às 5:44 pm #

    Esse filme e ÓTIMO!! Woody Allen é demais! Sarcasmo e ironia na medida certa! Vicky Christina Barcelona é uma boa pedida também!

    • madeinipanema 16 de janeiro de 2013 às 10:12 am #

      Sou apaixonada por Woody Allen. Sempre que estreia algum filme dele vou correndo assistir. Dos mais antigos, adoro Os Trapaceiros (Small time crooks), mas o meu preferido de todos é Meia Noite em Paris!

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