O produto mais valioso

18 set

Logo na minha primeira semana em Nova York ouvi uma das frases que com certeza eu vou guardar enquanto morar aqui. A frase veio de uma professora de business que nos fez uma pergunta: qual a commodity mais valiosa de Manhattan? Pensei em petróleo, pensei em frutas e legumes, mas não pensei no essencial: ESPAÇO.

São 9 milhões de pessoas morando em uma ilha. Não é à toa que qualquer metro quadrado de qualquer espaço custa uma fortuna. Mas não é nem aí que eu quero chegar. Eu quero falar é de como escapar desse amontoamento de gente e qual o impacto que isso gera pra nós, pobres mortais que não podemos (ainda) comprar uma cobertura que tenha, de fato, um quarto, uma cozinha e uma sala separados – você achava que cozinha americana era uma coisa moderna? Não, meu bem, cozinha americana é um jeito prático de enfiar dois cômodos em um só e ainda dar uma cara gourmet pro negócio.

Bom, mas o tal impacto que eu estou falando se dá basicamente de duas formas: supervalorização de lugares abertos e excesso de critérios em lugares fechados.

O Central Park é sim uma coisa maravilhosa (eu ia dizer de Deus, mas você sabia que não tem absolutamente nada de natural nele? Tudo foi planejado e plantado e instalado pelas mãos humanas).  E claro que pra mim, que sempre sonhei morar em Nova York, as lágrimas de alegria quando o vi pela primeira vez tinham outro significado. Mas mesmo pras pessoas que sempre moraram aqui, o Central Park é uma das coisas mais valorizadas e respeitadas da ilha. Por que? Simples. É o oposto de todo o resto da cidade. É um dos poucos lugares no qual você consegue parar sem ser arrastado por uma multidão vestindo ternos e tailleurs. É o lugar onde você pode ser turista, atleta, hippie, dogwalker,  o que for. Eu diria que é uma parte essencial da cidade, não só pelos motivos óbvios de oxigenação e equilíbrio da camada de ozônio, mas pelos motivos subjetivos, de você poder parar alguns segundos dentro da cidade que nunca pára.

O segundo impacto que eu falei, sobre o excesso de critérios em lugares fechados, é na verdade uma coisa muito bizarra que acontece aqui. Em praticamente todas as casas noturnas, bares e, às vezes, até restaurantes é um processo seletivo de quem entra ou não. Como os lugares são pequenos, a entrada tem que ser muito seletiva. Sendo assim, dificilmente você paga para entrar em algum lugar. Mas você também dificilmente entra se não estiver bem vestida, bem maquiada e se não for muito simpática com o bouncer, ou ‘leão de chácara’ como algumas pessoas chamam. Não acho que tenha um critério pré-estabelecido, só acho que aquele indivíduo tem que ir com a sua cara. Em outros lugares do mundo provavelmente isso daria processo por discriminação e tal e coisa. Aqui é assim. E ou você aceita. Ou você aceita.

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Esse ‘apertamento’ também gera outros negócios que, antes daqui, eu nunca tinha dado valor. Como o estoque para pessoas físicas – você vai lá e guarda suas roupas de outra estação ou os brinquedos do seu primeiro filho em um galpão, geralmente afastado do centro, e paga um aluguel mais singelo por isso. Outra coisa engraçada é que é raro encontrar alguém que more sozinho. Por questões econômicas e de praticidade, é muito normal gente já crescida, bem sucedida, ainda morar com colegas de quarto ou de apartamento. Tudo para diminuir o rombo orçamentário causado por esses aluguéis estratosféricos.

Não acho que essa supervalorização do espaço seja boa ou ruim. Acho que é uma condição imposta, como eu já disse antes, pelo fato de zilhões de pessoas quererem estar no mesmo lugar, ao mesmo tempo. Cabe a você se adaptar ou não. Também acho que isso deixa uma lição pra quem não precisa necessariamente conviver com essa situação: você já pensou como você administra o seu espaço? Será que ele não poderia ser melhor aproveitado? De repente você não precise de espaço como eu preciso aqui, mas uma boa organização e redistribuição dos ambientes e objetos pode melhorar (e muito) sua produtividade e qualidade de vida.

(Post por Jeana Mattei)

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Uma resposta to “O produto mais valioso”

Trackbacks/Pingbacks

  1. Criatividade e originalidade em 60m² « - 17 de outubro de 2012

    […] sobre essa relação entre os espaços e sua supervalorização, se você não leu ainda, clica aqui que vale a pena), mas as necessidades das pessoas não diminuiram – na verdade aumentaram. E […]

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